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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

WTF is... Bojack Horseman?


O Netflix conseguiu duas proezas tão grandiosas e saborosas, que me surpreende encontrar qualquer pessoa que ainda não tenha se apaixonado pelo serviço. A possibilidade de se assistir a qualquer programa, a qualquer hora, onde quiser, é evidentemente uma delas, que se espalha em proezas correlatas, como memorizar exatamente em que ponto você deixou um filme, uma série, ou quantas coisas você estiver assistindo, para que possa terminar de assistir em outro horário. A segunda delas é a total liberdade de comerciais.

E sem essa necessidade de se manter através de contratos publicitários, a Netflix é livre para criar seus próprios seriados, que ficarão livres de qualquer restrição que os deixariam de fora de redes de televisão por não atraírem os consumidores X ou Y em potencial. É essa necessidade que tecnicamente permite, por exemplo, que um programa que não dê muita audiência, e não seja particularmente apreciado, continue no ar por atrair exatamente aquela classe social almejada por determinado anunciante.

E foi dessa deliciosa liberdade artística que nasceu o desenho Bojack Horseman, um dos mais inovadores e surpreendentes expoentes do entretenimento moderno. Se por um momento a figura de um cavalo falante, com corpo de homem, pode não passar muita confiança, assegure-se que é mero detalhismo estilístico.


Bojack Horseman poderia facilmente ser um seriado com atores reais, de carne e osso, todos humanos, interpretando humanos, e não haveria mudança alguma no contexto do show. Entretanto, ao usar um desenho e animais antropomórficos, o seriado consegue captar ironias de forma maliciosa.
O seriado gira em torno de Bojack Horseman, um cavalo de meia-idade que ficou famoso ao estrelar o seriado de sucesso Horsin’ Around, cancelado há 20 anos. Desde então, tendo amealhado uma boa fortuna, Bojack vive sem trabalhar, em sua belíssima mansão localizada em um morro bem em frente ao letreiro de Hollywood.

Em seu sofá vive o drogado Todd (voz do ótimo Aaron Paul, de Breaking Bad), que acabou dormindo ali após uma festa e nunca mais foi embora. Bojack é agenciado pela workaholic agente Princess Carolyn, uma gata rosa com quem mantém um conturbado relacionamento amoroso.

A primeira temporada possui um arco bem definido. Após fechar contrato para publicar sua autobiografia, Bojack se encontra em dificuldade para iniciar o texto. Seu agente literário, o endividado e sempre à beira de um ataque de nervos Pinky Penguin, o convence a contratar uma escritora fantasma, Diane Nguyen. Ela é namorada do sempre positivo Mr. Peanutbutter, um labrador amarelo superfeliz que estrelou, também nos anos 90, um seriado exatamente idêntico ao de Bojack, que o despreza desde então.

Já nos primeiros episódios, é fácil captar o humor adulto e irônico do seriado, que não é nem um pouco aconselhado para crianças. Há cenas de sexo, álcool e drogas, todas regadas por um humor inspirado, repleto de tiradas que podem fazer alguém gargalhar alto. Entretanto, com o avançar dos episódios, a melancolia e dramaticidade começa a tomar um pouco o ambiente, trazendo assuntos sérios à mesa, como depressão, ansiedade e medo. Vamos descobrindo, aos poucos, que Bojack é uma figura extremamente multifacetada, repleta de traumas ocultos. E todas as cenas que trazem Bojack como criança são extremamente engraçadas e tristes ao mesmo tempo.


A segunda temporada traz os bastidores do filme de Secretariat, um cavalo de corridas (voz de John Krasinski, o Jim de The Office) que se envolve em corrupções politicas e acaba sendo banido das pistas. O sonho de Bojack é interpretá-lo nos cinemas, já que Secretaiart é seu herói.

Como visto, participações de celebridades são uma constante, e podem trazer desde vencedores do Oscar, como Alan Arkin (Pequena Miss Sunshine, 2006) e J.K. Simmons (Whiplash, 2014), a nomes como Daniel Radcliffe e até do ex-Beatle Paul McCartney.

Abraçando simultaneamente o laço cômico-dramático, somente a cena final da segunda temporada é poética e bela o bastante para estar entre os momentos mais marcantes de 2015, bem como uma espetacular sequência que trás determinado personagem em cima de um iate.

E se isso parece denso demais, sequências humoradas como as que envolvem o personagem Vincent Adultman, que pode ou não ser três crianças em cima uma das outras escondidas em um casaco grande, e a que traz a loja de artigos de Halloween em janeiro, são engraçadas o bastante para convencer qualquer pessoa que curta uma boa comédia.


Ao final das contas, Bojack Horseman é uma pequena preciosidade, que merece ser vista com atenção. É mordaz, profunda e inegavelmente inteligente em sua abordagem, que ao mesmo tempo é capaz de criticar o culto às celebridades, trazer uma crua alegoria sobre depressão e insatisfação pessoal, bem como à solidão e às fracas relações humanas (e animalescas).

Sem contar a música final, que é deliciosa e extremamente viciante.

Cássio Delmanto Advogado, colunista automotivo, beatlemaníaco, fanático por carros, filmes, séries, música, tecnologia e cultura inútil em geral. 

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