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domingo, 19 de julho de 2015

Dica da Semana: Mad Max - Estrada da Fúria

fury road
Quando o médico australiano George Miller começou a se interessar pelo cinema, no final dos anos 70, se tornou apenas óbvio para ele que a história ideal a se produzir era um filme sobre carros, ou como diria o próprio, sobre o ‘culto ao automóvel’.

Muito se diz sobre o ‘brasileiro ser apaixonado por carros’, principalmente na publicidade, mas nada se compara com o verdadeiro fenômeno cultural automotivo que existe na Austrália. O culto ao carro é tamanho pela terra dos cangurus, que famílias inteiras se definem pela preferência pela Ford ou pela Holden (a filial da GM por lá), do mesmo modo como aqui se definem por times de futebol.

Transferir essa obsessão automotiva às telas, então, era apenas natural. E numa dessas histórias que somente o destino pode justificar, o jovem cineasta não possuía financiamento o suficiente para fazer um filme repleto de figurantes e com cenários evoluídos, usando como saída, ambientar seu projeto num mundo pós-apocalíptico, o que lhe deu liberdade para rodar o filme todo no meio do nada, e com poucos atores.

O filme em questão era Mad Max, lançado em 1979 com o então desconhecido ator Mel Gibson, e que viria a revolucionar o modo como filmes de perseguição automotiva e ambientados em mundos utópicos pós-apocalípticos seriam feitos a partir de então.

Considerado por muitos violento demais, frio e até cruel, a trama na verdade apenas servia de fundo a um filme que coloca o motor V8 num patamar acima de qualquer coisa: e quem possuir o motor mais potente aqui, com certeza será o rei do mundo. O sucesso faria com que Miller retornasse com duas continuações, em 1981 e 1985, ambas com Gibson, e que são notoriamente consideradas inferiores pelo público.

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Desde então, já alçado à fama como idealizador, George Miller passou a se dedicar a outros projetos, como os filmes do porquinho Babe, e do pinguim Mano, de Happy Feet. E é apenas divertido pensar que a mesma mente capaz de criar personagens sádicos e sangrentos como o vilão Humungus de Mad Max 2, também seria capaz de dar vida a simpáticos bichinhos. Mas divago.

Os planos para um novo Mad Max começaram há um bom tempo. E tão cedo se iniciaram, rapidamente foram varridos por uma sucessão de tragédias, como os atentados de 11 de setembro, a Guerra do Iraque, e até mesmo o precoce ‘final’ da carreira de Mel Gibson, que manchou a própria imagem ao fazer comentários antissemitas quando foi preso por dirigir embriagado em 2006. Sendo Hollywood uma indústria chefiada por vários judeus, ele se encontra em um limbo desde então. Mas depois da tempestade vem a bonança, já diz o provérbio, e Miller, mesmo aos 70 anos, conseguiu finalmente trazer o louco Max de volta à vida. Agora com Tom Hardy no lugar de Gibson. 

Mad Max: Estrada da Fúria, não é exatamente uma refilmagem do primeiro filme, e tampouco uma continuação da trilogia original. O novo Mad Max se situa, na verdade, no mesmo universo pós-apocalíptico do primeiro, mas desta vez inundado por um polpudo orçamento, foi capaz de elevar todas as ideologias e invenções de Miller ao extremo, como se o primeiro filme fosse um mero rabisco em um guardanapo.

E mesmo sessentão, o cineasta conseguiu novamente recriar todo o gênero, não somente na forma e linguagem do filme em si, mas na técnica de filmagem. A maior parte das sequencias e acrobacias malucas foram feitas de verdade, sem criações digitais. Assim, há explosões, veículos se chocando uns com os outros das formas mais absurdas e imprevisíveis possíveis, num filme que se passa basicamente em uma única estrada. Usando ainda uma palhete colorida e meio alaranjada, a fotografia deixa em evidência a aridez do deserto de forma desconcertante, ao invés de usar a clássica tonalidade escura e cinza de filmes apocalípticos como Eu Sou a Lenda (2007) e O Livro de Eli (2010).

fury roadPara quem é fanático por carros, como eu, o novo Mad Max é provavelmente o mais épico filme de perseguição automotiva já feito, e o culto aos veículos é tamanho, que uma infinidade de figurantes é vista gritando ‘V8’ como se fosse o nome de uma divindade, enquanto retiram volantes de uma pilha para equipar seus veículos de guerra.

E se na trilogia original já se divertia com os veículos, neste novo, isto também é levado a um novo patamar. Uma série de visualmente intrigantes brutamontes metálicos, compostos na maioria das vezes por pedaços de vários carros clássicos, forma um comboio alucinante como nunca se viu em um filme antes. Desde um Jaguar Mark II dos anos 60 feito conversível e deixado somente na lata, a um misto de caminhão e ‘bigfoot’ feito com dois Cadillacs Eldorado 1959, tudo é muito perturbadoramente perfeito, como se realmente aquele mundo sem leis vivesse em torno dos carros e seus motores.

Se ainda há alguma dúvida em conferir este novo clássico, só a cena de abertura, com o borbulhar do inebriante V8 do lendário Interceptor preto de Max, já vale o preço do ingresso. E se no meio do caminho ainda houver um caminhão gigantesco onde um homem de vermelho toca alucinadamente uma guitarra de braço duplo durante as perseguições, você terá certeza de que está presenciando algo único.

Cássio Delmanto Advogado, colunista automotivo, beatlemaníaco, fanático por carros, filmes, séries, música, tecnologia e cultura inútil em geral. 

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